O MILÊNIO, A GRANDE TRIBULAÇÃO E A VINDA DE CRISTO
Uma abordagem na perspectiva reformada

 

Rev. Eneziel Peixoto de Andrade

Para a consideração desse tema, um bom ponto de partida é o texto de Apocalipse 20. Para se entender o referido texto é essencial conhecer o método de interpretação denominado Paralelismo Progressivo. Aliás, o entendimento global do Apocalipse torna-se bastante simplificado com a aplicação do referido método. De acordo com esse método, o livro de Apocalipse está dividido em sete seções. Chama-se Paralelismo porque cada seção trata praticamente do mesmo assunto; e é Progressivo porque em cada seção há elementos novos, verificando-se uma progressão escatológica de seção para seção.

Esse método foi proposto pelo reconhecido teólogo William Hendriksen, que identificou as seguintes seções no Apocalipse:

  1. A Igreja no mundo (cap. 1 a 3)
  2. A Igreja sofrendo provas e perseguições (cap. 3 a 7)
  3. A Igreja vingada, protegida, vitoriosa (cap. 8 a 11)
  4. Cristo combatendo o Dragão e seus agentes (cap. 12 a 14)
  5. Ira final sobre os impenitentes (cap. 15 e 16)
  6. A queda de Babilônia e das bestas (cap. 17 a 19)
  7. O Dragão condenado; Cristo e a Igreja vitoriosos (cap. 20 a 22)

Sendo assim, os capítulos 20 a 22 constituem a última seção do livro. Segundo o professor Anthony A. Hoekma, o texto de “Apocalipse 20.1 leva-nos novamente ao princípio da era cristã” (Milênio: Significado e Interpretações, LPC, Campinas/SP, 1985).

O capítulo 20 de Apocalipse apresenta vários símbolos, a saber: chave, corrente, 1 000 anos, abismo, selo, tronos, prisão, livros, Gogue e Magogue, lago de fogo e enxofre. Não se deve dar, a nenhum desses símbolos, uma interpretação literal; nem mesmo aos 1 000 anos. Esse número é simbólico e indica apenas um longo período de tempo.

É importante atentar também para o fato de que, na hermenêutica de Apocalipse 20, a História, a Geografia e a Matemática são pouco relevantes como ferramentas para auxiliar na interpretação; ao utilizá-las, devemos faze-lo com cautela.

O texto descreve situações e experiências complexas, tais como: o aprisionamento de Satanás; o reinado dos santos no céu; a primeira ressurreição; a segunda morte; a libertação de Satanás e sua derrota definitiva; e o grande julgamento.

Partindo de Apocalipse 20 e, à luz do ensino geral das Escrituras, vejamos:

O Milênio

O milênio já começou com a primeira vinda de Cristo; e terminará um pouco antes da segunda vinda. Os “1 000 anos” mencionados em Apocalipse 20, não devem ser entendidos como sendo literalmente um período de 1 000 anos. Referem-se, na verdade, a um período de tempo iniciado a partir da primeira vinda de Cristo. A referência à primeira vinda de Cristo inclui tudo o que a envolve:, desde a encarnação até à ressurreição e entronização (Ef 1.20-23).

Satanás está amarrado e aprisionado, até que transcorra o período denominado 1 000 anos (Ap 20.1-3). O aprisionamento de Satanás indica que o seu poder e liberdade de ação foram restringidos por Cristo. Em João 12.31 e 32, Jesus declara: “Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso. E eu, quando for levantado da terra, atrairei todos a mim”. Segundo o próprio Senhor, os sinais da chegada do reino de Deus confirmam que Ele mesmo primeiramente amarrou o valente, isto é, a Satanás (Mt 12.28 e 29).

O acorrentamento de Satanás não o impede, entretanto, de agir; apenas restringe sua capacidade de ação, no sentido de poder enganar e obscurecer as nações, como acontecia até à vinda de Cristo (Is 9.1-7). Também o impede de resistir e prevalecer contra a Igreja (Mt 16.18).

A era que estamos vivendo e que é o desenrolar do próprio Milênio, terminará pouco antes da segunda vinda de Cristo, quando Satanás será solto e derrotado de uma vez por todas. Imediatamente, o Senhor virá para julgar o mundo.

A era atual – compreendida pelo Milênio – é o tempo da Igreja ou a era evangélica; e Satanás não pode impedi-la (Lc 10.17-19). Este é um período em que a Igreja tem a liberdade e a oportunidade de fazer ouvir as boas-novas de salvação em todo o mundo, como determinou o Senhor Jesus (At 1.6-11). É importante observar, nesse texto, que essa missão está inserida entre a primeira e a segunda vindas do Senhor. A Igreja deve aproveitar as oportunidades e desenvolver com urgência a sua missão, pois o tempo está próximo (Rm 13.11-14).

É importante lembrar, porém, que o fato de Satanás estar amarrado, não significa que seja desnecessário preocupar-se com ele. Sabemos que um  leão, mesmo amarrado, continua sendo perigoso, podendo causar muitos danos (I Pe 5.8-10).

Nos versículos 4 a 6, João fala novamente em 1 000 anos, durante os quais os santos “viveram e reinaram com Cristo”. Não se trata, aqui, de outro milênio; apenas indica que, enquanto o Milênio transcorre e vive-se na terra a era da Igreja, no céu estão vivendo e reinando com Cristo, os crentes que já morreram. João destaca, inclusive, os crentes que tinham sido martirizados pela tirania do Império Romano.

A “primeira ressurreição”, mencionada no texto, refere-se ao novo nascimento em Cristo (Jo 5.24; Rm 6.3-8; Ef 2.5; I Jo 5.11,12). Quanto à “segunda morte”, trata-se da morte espiritual e eterna, reservada aos ímpios (Ap 20.14; 21.8).

A Grande Tribulação

João afirma que, cumpridos os 1 000 anos, Satanás será  posto em liberdade: “é necessário que ele seja solto pouco tempo” (Ap 20.3,7). Será um curto período, caracterizado por grande apostasia. O texto diz que Satanás “sairá a seduzir as nações nos quatro cantos da terra”, com o propósito de pelejar contra o povo de Deus (v.8).

Gogue e Magogue, mencionados nesse versículo, não se referem propriamente a pessoas ou lugares, mas são nomes simbólicos, representando a oposição movida pelos inimigos de Deus e do seu povo. O Rev. Américo J. Ribeiro observa o seguinte: “Os nomes Gogue e Magogue derivam do livro de Ezequeil (Ez 38.2). São usados pelo profeta, segundo autorizados intérpretes, para indicar o poder dos selêucidas, revelado nos dias de Antíoco Epifânio, o arquiinimigo dos judeus. João usa esse período de grande aflição e angústia para o povo de Deus, na velha dispensação, como símbolo do ataque final de Satanás e suas hordas contra a Igreja, nos últimos dias” (Iniciação Doutrinária, vol.3, LPC, Campinas/SP, p.57).

Comentando esse trecho de Apocalipse, em comparação com o ensino de Paulo, Michael Willcock faz a seguinte análise: “Paulo descreve em 2 Tessalonicenses 2 o que vai acontecer imediatamente antes do retorno do Senhor. ‘...não acontecerá sem que primeiro venha a apostasia, e seja revelado o homem da iniquidade...’ (v.3). No tempo presente um poder divino ‘o detém’, porém é certo que em alguns aspectos ‘o mistério da iniquidade já opera’ (vv.6 e 7). Mas quando aquele que o detém for afastado, o mundo novamente verá ‘a eficácia de Satanás... com todo engano de injustiça’(vs. 9 e 10). As predições não simbólicas de Paulo concordam de forma tão marcante com as profecias simbólicas de Apocalipse 20 que é muito difícil dizer que as duas passagens se referem a circunstâncias diferentes” (A Mensagem de Apocalipse, ABU Editora, SP/SP, 1986, p.158).

A investida final de Satanás e suas hostes contra o povo de Deus será de curta duração, pois tudo culminará com a intervenção e a vitória definitiva de Cristo contra ele e seus agentes: “desceu fogo do céu e os consumiu. O diabo, o sedutor deles, foi lançado para dentro do lago de fogo e enxofre... e serão atormentados pelos séculos dos séculos” (v.10).

Esse evento é sucedido imediatamente pela segunda vinda de Cristo (Mt 24.29-31). A propósito, é oportuno recordar as orientações de Paulo, registradas em I Tessalonicenses 2.13 a 17.

A Vinda Gloriosa de Cristo

O trecho compreendido nos versículos 11 a 15 é uma clara referência ao retorno de Cristo e o grande julgamento. Nesse tempo ocorrerá a ressurreição de todos os mortos. A visão de João é muito nítida, quanto à presença diante do trono, de todos os que estavam mortos e acabaram de ressuscitar. Essa ressurreição envolve a todos: os justos e os ímpios.

Sobre isso, a Confissão de Fé de Westminster declara: “No último dia, os que estiverem vivos não morrerão, mas serão mudados; todos os mortos serão ressuscitados com os seus mesmos corpos, e não outros, embora com qualidades diferentes, e se unirão novamente às suas almas, para sempre. Os corpos dos justos serão, pelo poder de Cristo, ressuscitados para a desonra; os corpos dos justos serão, pelo seu Espírito, ressuscitados para a honra e para serem semelhantes ao próprio corpo glorioso de Cristo”.

Simultaneamente à ressurreição dos mortos e a transformação dos que estiverem vivos, ocorrerá o julgamento; e seguir-se-á a eternidade (Mt 16.27; II Co 5.10; II Ts 1.7-10; Jd 14,15).

A morte e os seus poderes, bem como os ímpios, já terão sido lançados no lago de fogo – símbolo do tormento eterno (vv.14,15). Os santos, por sua vez, na presença do Senhor, começam a desfrutar plenamente o novo céu e a nova terra, por toda a eternidade. É o fim da História e o “começo” da eternidade! Como declara o profeta Daniel, “os santos do Altíssimo receberão o reino, e o possuirão para todo o sempre, de eternidade a eternidade” (Dn 7.18). Amém!

 
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